Diálogo entre Reinaldo Gonçalves e o Carlos Vainer
Querido Reinaldo,Reli com mais atenção tua mensagem e acho que deveria retomar alguns pontos, para que continuemos e aprofundemos o debate.
Veja abaixo meus comentários.
================================================
Prezado Vainer,
Como seu suplente no Consuni, agradeço pelo envio do documento e o parabenizo pela sua qualidade. Os princípios e as linhas gerais me parecem corretos. Há, entretanto, um ponto em que tenho posição radicalmente distinta da sua (ponto no. 8), que trata da transferência das unidades da Praia Vermelha para o Fundão. O fato é que não há qualquer relação entre o desenvolvimento institucional da UFRJ ou o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro com a transferência das atuais unidades da Praia Vermelha para o Fundão. Todos os argumentos de "integração física" são totalmente desprovidos de sentido.
Estou atualmente na Universidade de Paris e aqui não há qualquer preocupação com centralização física. Muito pelo contrário: na medida em que a universidade se desenvolvia, havia descentralização. Não é por outra razão que estão acabando com restaurantes universitários. A tendência é a mobilidade entre campi. Na Era da Informação, as deseconomias provocadas pela aglomeração espacial são ainda mais valorizadas. Na Era da Globalização, a integração produtiva exige cada vez mais a desintegração territorial da produção. A "integração física" da UFRJ é, para ser generoso, um argumento datado. Certamente, aqueles que defendem a extinção do campus da Praia Vermelha precisam de melhores argumentos.
-----------
Sobre esta questão, já teci comentários em minha mensagem anterior. Evidentemente, se pensamos em um estudante que desenvolva atividades em diferentes unidades, que pode ter aula de línguas na Faculdade de Letras e de Artes na Belas Artes, enquanto avança em seu curso de economia ou administração, certamente a integração física constituirá enorme vantagem. Se ele é um aluno da classe média, que freqüentou o Britania ou a Aliança Francesa, a aquisição de uma ou mais línguas estrangeiras resultou de um investimento familiar, mas se ele é oriundo de classes menos abastadas, dificilmente conseguiu o domínio de uma segunda ou terceira línguas, hoje essencial para quem quer avançar em estudos pós-graduados e, mesmo, em algumas áreas, nos estudos graduados (as crianças chinesas estão aprendendo inglês na escola elementar). Isso apenas para citar um exemplo. E pense nos estudantes que fazem licenciatura em Matemática ou em Física, ou em Letras, se despencando do Fundão para a a Faculdade de Educação na Praia Vermelha. Estes são enormes custos, invisíveis para nós porque incorridos integralmente pelos estudantes.
Há um outro argumento a ser considerado: a integração física não implica, necessariamente, na integração acadêmica. É verdade, mas pode ajudar.
---------
O Fundão tem enormes desvantagens locacionais. A Praia Vermelha, por seu turno, tem grandes vantagens específicas. Não é por outra razão que a saída das unidades da UFRJ da Praia Vermelha abrirá, certamente, espaço para ..."grandes oportunidades de negócios" com o uso de um espaço urbano muito valorizado. Consta que, desde a construção do Rio Sul, o setor de incorporação imobiliária está interessado nos terrenos da Praia Vermelha.
-------------
Sobre as vantagens locacionais, já comentei que depende do “agente social” que está sendo considerado. Localizações são sempre relacionais e numa cidade tão desigual como a nossa, as relações locacionais são, também, quase sempre, relações entre diferentes grupos sociais. Assim, uma discussão sobre vantagens locacionais deve considerar as diversas “clientelas” atuais e potenciais, as diferentes atividades atuais e futuras.
O comentário sobre “grandes oportunidades de negócios” imobiliários foi uma das razões para que eu voltasse a comentar sua mensagem. Na verdade, é a segunda vez em que vejo a insinuação de que o projeto de transferência das unidades para a Cidade Universitária poderia estar fundado em algum interesse espúrio, negociata, mais que negócio, a serviço de não sei que interesse incorporador. Ora, com toda franqueza que nossa amizade me permite, quero dizer-lhe que, nunca, em nenhum momento, ouvi qualquer menção, de qualquer dirigente da UFRJ, ou de qualquer membro do CONSUNI, a este tipo de questão. Ouvi muitas conversas e discussões sobre o que queremos como futuro de nossa universidade, como fazer com que ela cumpra suas responsabilidades sociais, mas nunca ouvi ninguém propor ou falar de um “negócio imobiliário”.
Isto posto, certamente a transferência de unidades para a Cidade Universitária liberará espaços e um projeto físico-territorial para os próximos 5 a 10 anos deverá contemplar: a) um novo Plano Diretor da Cidade Universitária; b) um Plano complementar de destinação dos imóveis (prédios e terrenos) liberados. Além da Praia Vermelha, teremos também prédios no centro – IFCS, Faculdade de Direito. Esta é uma discussão do maior interesse para todos nós.
Eu, de meu lado, estou convencido que tanto a Praia Vermelha como a Ilha do Fundão constituem extraordinário patrimônio e que a gestão de nosso patrimônio deve estar submetida aos objetivos da Universidade. A idéia de que não devamos considerar o nosso patrimônio conduziu, no passado, à total falta de responsabilidade, sendo várias de nossas áreas ocupadas por interesses, estes sim, espúrios e estranhos aos interesses e objetivos de uma universidade pública. Os melhores exemplos estão na própria Praia Vermelha, com o Canecão e o Bingo. Isso sim, caro amigo, é inaceitável. Isso sim é uma operação espúria e estranha a nossos interesses, lesiva. Recuperar e administrar nosso patrimônio é, pois, não apenas necessário, como urgente.
De outro lado, um plano da dimensão do que estamos discutindo, envolvendo a transferência das unidades de ensino e pesquisa para a Cidade Universitária, exigirá de nós uma discussão séria e profunda acerca de qual a direção que queremos dar a nosso patrimônio, inclusive a nosso patrimônio imobiliário. Uma alternativa, que é a vigente até hoje, é ignorar a questão: ficamos sentados em cima de nosso patrimônio, assistindo, aqui e ali, a sua degradação ou perda. Omissão, indiferença, ignorância. Outra atitude é a de considerar que o patrimônio existe e deve ser administrado de maneira a atingir os nossos objetivos e cumprirmos nossa função. De minha parte, não apoiaria nenhuma operação, financeira ou imobiliária, que implique em perda patrimonial; mas julgo que devemos dar um uso racional a nosso patrimônio, que o mobilize a serviço da universidade. Penso que um grande centro de convenções com um hotel universitário, como existem em todas as grandes universidades do mundo, seria um uso simultaneamente nobre e de interesse da universidade e da cidade. Estive ontem em Campinas e dormi no Hotel do Professor Visitante. Por que é que o Palácio Universitário não pode ser mantido e adaptado para se transformar num extraordinário e charmoso centro de convenções? Por que é que, no espaço livre disponível não podemos contar de instalação hoteleiras para acolher professores visitantes e participantes de eventos?
E na Cidade Universitária? Será que você desconhece que existe lá um enorme número de unidades de ensino e pesquisa e que precisamos ocupar o espaço ... sob pena de vermos, ao longo do tempo, nosso patrimônio imobiliário ser progressivamente erodido pela ocupação de áreas crescentes por empresas estatais, com baixíssimos retornos para nós. Não lhe incomoda ver esse péssimo “negócio imobiliário” avançar ao longo do tempo?
Enfim, é necessário que os colegas que trabalham na Praia Vermelha façam, eles também, um esforço de pensar a UFRJ em seu conjunto. É necessário que não se esqueçam que esta universidade detém uma enorme área na Cidade Universitária e que devemos dar um destino a esta área... sob pena de a vermos, ela também, invadida nos próximos anos. Que uso propõem?
------------------
A atual gestão da reitoria tem sido incapaz de promover o melhoramento das condições de trabalho na Praia Vermelha. Espero que a próxima gestão seja capaz de valorizar o trabalho atualmente desenvolvido nas suas unidades e realize os investimentos de capital e custeio necessários.
---------------------
Não sou defensor da Reitoria nem tenho procuração para tal. Mas seria bom você não esquecer que há vários anos o orçamento da União não destina um único centavo para investimento. Como crítico lúcido das políticas governamentais, você não deveria lançar à Reitoria responsabilidades que, como você sabe, lhe escapam.
Por outro lado, seria também interessante perguntar, por exemplo, como têm sido utilizados os recursos que o IE, a FACC e outras unidades da Praia Vermelha, e do Fundão também, obtêm da venda de serviços e cursos pagos. Qual o montante auferido no último ano com a venda de serviços e cursos? Qual o retorno para as condições de trabalho de professores, estudantes e servidores técnicos-administrativos? Quanto foi investido nas bibliotecas?
Ao lutar por mais verbas para as universidades públicas, ao condenar a destinação de recursos governamentais para o ensino superior privado, constituído em sua grande maioria de empreendimentos comerciais com baixo mérito acadêmico, devemos também olhar para nossas próprias práticas e combater os processos do que chamo de “privatização branca” da nossa universidade pública.
--------------
Em síntese: não conte com meu apoio no que se refere à transferência das unidades da Praia Vermelha para o Fundão. Como seu suplente, meu voto é contrário ao seu.
Que isto não se torne uma polêmica. Trata-se simplesmente da minha avaliação.
--------------
Quero deixar claro que respeito a sua opinião e a de todos os colegas do IE. Por isso mesmo acho fundamental que aprofundemos o debate, apresentemos os argumentos e, também, as propostas. Para isto conto com seu apoio: para discutir, para avançar novas propostas e projetos. Acho que não podemos ter apenas um proposta na mesa: é necessário que outras propostas surjam, que outros projetos se delineiem. Do encontro e confronto de múltiplos projetos surgirá, acredito, um caminho para a UFRJ que contemplará as principais necessidades e os mais legítimos anseios.
Quanto à polêmica, ao contrário de você, acho que é bem-vinda. Se a universidade é o lugar do pensamento e da crítica, deve ser também, necessariamente, o lugar da polêmica.
Saudações universitárias
Carlos
Prof. Carlos B. VainerConselho Universitário da UFRJRepresentante dos Professores Titulares do CCJE

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home