domingo, julho 29, 2007

Sucesso não esconde problemas

Do Tribuna da imprensa


O tom finalmente realista do discurso do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), o mexicano Mario Vázquez Raña, demonstrou que, entre erros e acertos, a pretensão brasileira de sediar uma Olimpíada ainda precisa ser muito bem trabalhada. Para Raña, o Pan do Rio foi o melhor da história, repetindo a fala que marcou toda sua permanência na cidade.

Mas, no penúltimo dia de competição, o dirigente demonstrou que é, acima de tudo, um empresário (domina uma fatia das comunicações em seu país) e, como tal, o que vale é o saldo calculado na ponta do lápis. Primeiro, os elogios. A cidade abraçou a competição, como espera um evento desse porte, participando ativamente das provas disputadas por brasileiros.

O apregoado caos no trânsito não aconteceu, embora funcionasse razoavelmente o esquema de via exclusiva, em ruas e avenidas, para os participantes do Pan. Também o sistema de transporte específico para delegações e imprensa, item obrigatório, teve um bom rendimento. O Pan provocou ainda um impacto econômico favorável para a cidade - segundo dados do Sindicato de Bares, Hotéis e Restaurantes, o setor teve um aumento de 30% no faturamento em relação ao mesmo período no ano passado. A hotelaria, por exemplo, deverá arrecadar R$ 20 milhões a mais, apesar do caos aéreo.

Finalmente, as estruturas construídas especialmente para o Pan, responsáveis por boa parte dos R$ 3,7 bilhões investidos no evento. O Estádio João Havelange, o Complexo Maria Lenk, o Velódromo e a Arena, além da reforma do Maracanãzinho, provocaram boas impressões em dirigentes, atletas e imprensa estrangeira, pela beleza e funcionalidade.

Mas são essas mesmas estruturas o calcanhar de Aquiles do Pan carioca. Dias antes da abertura da competição, uma tempestade revelou buracos inesperados no Velódromo. Sem cobertura, o complexo Maria Lenk ofereceu riscos para nadadores em caso de chuva, o que alteraria a temperatura da água e provocaria ondas nada bem-vindas. Nada comparado, porém, à Cidade do Rock, onde foram disputadas, a duras penas, as competições de beisebol e softbol.

A iluminação mal instalada (muito baixa para a disputa masculina) obrigou uma mudança na tabela, obrigando as seleções a jogarem mais cedo. O placar eletrônico demorou a funcionar e o público sofreu ainda com a falta de uma tela protetora contra as bolas. Ventos fortes pioraram a situação, arrancando parte da proteção das arquibancadas, os mesmos ventos que destruíram, dias depois, tendas improvisadas para o ambulatório e para o acesso dos torcedores.

A cereja que azedou o bolo foram as chuvas que atrasaram em dois dias o início do softbol. Água que impediu a disputa da final, proclamando um campeão por mérito (EUA) e dois ganhadores da prata (Canadá e Venezuela). Idêntico vexame marcou o final do beisebol, em que os mexicanos não esperaram para receber a medalha de bronze.

O público sofreu ainda com a alimentação - a rede de lanchonetes Bob's foi, por contrato, a fornecedora exclusiva mas os torcedores reclamaram tanto da falta de variedade no cardápio como da emissão de cupom fiscal. Representantes da rede alegaram que tiveram dificuldade de acesso aos locais de disputa, o que permitiria executar um plano devidamente traçado. E, sobre as notas, o Bob's teria pago antecipadamente à Secretaria estadual de Fazenda o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com base na estimativa de vendas durante toda a competição.

Também a venda de ingressos foi problemática. Diversos bilhetes não tinham marcação de assento, ferindo o Estatuto do Torcedor. Cambistas vendiam também ingressos falsificados e as filas nas bilheterias fizeram com que muitos torcedores, no Maracanã e no João Havelange, por exemplo, só entrassem no segundo tempo. Finalmente, para conseguir seu dinheiro de volta, o público enfrentava uma burocracia imperdoável, que exigia no mínimo três horas de espera. Pequenos detalhes que podem arranhar a pretensão do Rio em sediar a Olimpíada de 2016.