sábado, fevereiro 10, 2007

Um dia no acampamento da UNE

Quarta-feira,23:00 H. Acordo irritado, tendo meu sono interrompido pela campainha do meu celular. Atendo-o muito sonolento e incomodado e recebo o convite para participar de uma reunião no acampamento que a UNE montou no antigo estacionamento montado em sua antiga sede. Aceito-o de imediato e volto a dormir sem sonhar ou sequer imaginar as surpresas que esta decisão me proporcionaria no dia seguinte.

Acordo e cumpro rigorosamente minha rotina de estagiário.Participo de um seminário no IE da UFRJ e sigo para a reunião.Trata-se do último compromisso do dia.Somente agora penso melhor no assunto.Há muito compartilho da visão confuciana de problematizar cada pequena tarefa cotidiana. Vivenciá-la sempre como a mais importante. Embora nem sempre consiga,procuro deixar cada coisa em seu lugar. Não estudo quando estou no estágio e vice-versa.Perceba que nem sempre alcanço este comportamento ideal. Se é que de fato ele o é.

Ainda no ônibus, pergunto ao motorista sobre o estacionamento ocupado sem esperanças de que o mesmo soubesse do assunto, e percebo,perplexo, que além de o conhecer o mesmo está interessado. Alguma coisa mudou. Já a algum tempo as ações sociais do ME deixaram de mobilizar a massa social integrante da própria universidade, quanto mais fora dela.Todavia, esse motorista está interessado.Conversa comigo, sabe de cor as suas pinturas e faz questão de me deixar na porta.

Confesso que eu ainda não havia percebido a magnitide que ele tinha tomado. Não estava na culturata que a antecedeu.Acompanhei por informes de amigos e essa era a minha primeira participação direta na ocupação.Pois é,a globo cobriu a repercussão é outra!

Uma vez dentro dele, não consigo me livrar da desconfortável sensação de que a qualquer momento a polícia iria invadir o local e prender todo mundo. Minha ignorância ao invés de proteção garantia-me sofrimento. Discretamente, comecei a perguntar sobre o litígio judicial,enquanto observava minhas rotas possíveis de fuga.Tentava compreender e mensurar o risco que estaria correndo naquele momento.

Vamos às notícias :Usucapião não inclui imóvel de finalidade comercial.Vale apenas para uso residencial e,mesmo assim, quando a pessoa comprovar ser aquela sua única moradia possível.Demais, é necessário morar no objeto da ação há pelo menos cinco anos sem reclamação de posse de seu proprietário. A UNE já teria conquistado o terreno desde 1994, e o empresário alegaria estar pagando aluguel para a entidade, o que não era verdade.

Tranquilizado pelas notícias, compreendo que o antigo proprietário nenhum direito sobre o mesmo teria.Logo, estava livre de apanhar da polícia.

Socializo-me. Converso um pouco com as integrantes dos movimentos e participo da reunião. À certa altura, somos levados à interrompê-la.Quem nos pede é uma espécie de coordenador informal dos acampados,que creio ser o Gustavo Petta,presidente da UNE.Mas,para ser sincero,não tenho certeza.Pode nem ter sido o tal coordenador.

O motivo da parada é a chegada do grande compositor Carlos Lyra.Ele mesmo, o criador de "Minha namorada" em parceria com Vinícius de Moraes.O grande sucesso da Bossa Nova que enche meu coração de alegria a cada final de semana.

Dali em diante nosso compromisso foi apenas com uma descontraída conversa ,muitas risadas e uma excelente tarde.

A reunião acabou.

Felipe Ribeiro Pinto.

P.S: Acompanhem a cobertura completa da ocupação e das reflexões pós-Bienal no site da UNE

1 Comments:

At 6:00 PM, Blogger Sergio said...

Grande Felipe! Adorei o texto!! Vou visitar com mais frequencia seu blog. abracao.

 

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