Debatendo Administração e Economia numa ensolorada manhã de domingo: Minhas impressões sobre a 5ª Bienal da UNE
Por José Luis Felicio Carvalho (Zeca)
Professor Adjunto – FACC/UFRJ
Depois de ter meu nome indicado por Felipe Ribeiro Pinto, estudante de Administração da UFRJ, e a convite dos organizadores do evento, participei como provocador da 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes), que ocorreu na última semana de janeiro. A sessão para a qual fui designado reuniu nove trabalhos das áreas de Administração e Economia. Segundo os anfitriões do evento, pela primeira vez a Bienal da UNE abriu espaço para pesquisas na área científica – antes predominavam trabalhos em Arte e Cultura.
A sessão de que participei foi aquela que teve o maior número de trabalhos selecionados, o que demonstra a importância crescente da área de gestão, economia e negócios no universo estudantil. A sala que abrigou o debate ficou cheia do início ao fim, contando inclusive com a participação de mestrandos e estudantes secundaristas. Pelo que pude apurar, eu era o único carioca presente na sala, além dos mediadores da UNE. A despeito de o evento realizar-se em nossa cidade, talvez em função do dia ingrato – domingo de manhã – e do calor abrasador que fazia do lado de fora, os estudantes de nossa cidade deixaram de marcar presença nesse importante debate.
Vale observar que, dos nove trabalhos sob minha responsabilidade, três haviam sido produzidos pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Outras escolas que enviaram representantes foram Unicamp, UFS (Sergipe), UFJF (Juiz de Fora) e UFRGS (Rio Grande do Sul), entre outras. Curiosamente, não estavam presentes representantes das cidades do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de São Paulo na sessão, o que mostra que os estudantes das maiores universidades situadas nas três maiores capitais do país ignoraram solenemente a Bienal. Também não havia trabalhos produzidos por estudantes de instituições particulares de ensino, o que marca possivelmente mais uma grande diferença entre os alunos da rede privada e os da rede pública em nosso país.
Apesar de o tema da 5ª Bienal da UNE referir-se à integração Brasil-África, os trabalhos apresentados na sessão de Administração e Economia não fizeram qualquer menção ao nosso continente-irmão. Apenas uma das pesquisas enunciou uma preocupação discreta com a cultura afro-brasileira, ao discorrer sobre os impactos de determinadas transformações econômicas numa comunidade localizada no interior de Minas Gerais.
Minha presença no evento não comportava a tarefa de avaliador das pesquisas segundo critérios de cientificidade, caso contrário meu julgamento teria sido desfavorável à grande maioria dos trabalhos apresentados. Apenas duas das nove pesquisas traziam indicativos de que haviam sido conduzidas com certo rigor acadêmico, amparadas por metodologia robusta e imbuídas de relevância. As demais estavam fracamente amparadas por diretrizes metodológicas escoradas por critérios ad hoc estabelecidos sem qualquer coerência. Entretanto, não era minha atribuição apontar estes problemas. A questão que se apresentava era discutir as idéias suscitadas por cada trabalho, empreendendo uma reflexão coletiva que envolvesse os estudantes em um debate capaz de integrar as diversas perspectivas ali apresentadas. O nome de minha função – provocador – implicava instigar os alunos de modo generoso, não estabelecer comparações entre a qualidade dos textos ou oferecer preleções para os presentes. Sugeri que todos formassem uma grande roda, pois não queria me colocar no lugar do professor que sabe tudo. Eu não estava em minha sala de aula, mas na UNE, na casa dos estudantes, ali eu era o convidado.
As idéias trazidas pelos alunos foram bastante tímidas e comedidas, e percebo que faltou ousadia aos pesquisadores. Uma vez que os trabalhos não estavam sendo avaliados em função de consistência epistemológica ou robustez metodológica, seria oportuno trazer novas possibilidades de reflexão e ação capazes de mobilizar a participação de outros na discussão dos problemas apontados. Infelizmente, apenas um ou dois textos conseguiram atender a essa configuração.
Tradicionalmente, as áreas de Administração e Economia são tidas como conservadoras, com raras exceções. Não existem muitas escolas com tradição acadêmica em questionar o sistema produtor, e os alunos presentes à Bienal pareciam dispostos a seguir seus mestres. De forma geral, mesmo os temas mais controversos e supostamente afeitos a um tratamento menos conformista estavam submetidos à instrumentalidade própria do universo dos negócios. Fala-se em empreendedorismo como solução para os males das comunidades carentes, sem abordar a questão de que a ideologia dominante festeja o empreendedor como indivíduo capaz de impulsionar o capitalismo em função da diretriz do “cada um por si”. Discorre-se acerca do conceito de “capital humano” sem atentar para o fato de que esta mesma representação discursiva é extremamente problemática do ponto de vista sócio-político.
Em geral, senti falta de argumentos capazes de permitir a transcendência do mundo dos negócios para uma perspectiva mais ampla, capaz de abarcar de forma mais compreensiva as contradições do sistema, as lacunas decorrentes do materialismo, os conflitos decorrentes da oposição primária entre capital e trabalho, as muitas facetas embutidas nos desequilíbrios injustos que assolam nossas sociedades, principalmente quando são considerados os estragos da dominação mercantilista, depois capitalista, sobre a África, tema central da Bienal. Foram perdidas diversas chances de se fazer essa ponte, ao menos no âmbito teórico. A ausência de relações com a dimensão sócio-política também me preocupou, afinal, estávamos em um evento organizado pela UNE, que tem um passado glorioso de resistência e de enfrentamento ao sistema.
Por fim, resta registrar que, apesar de todos estes pontos falhos, a sessão de Administração e Economia da 5ª Bienal reuniu uma brava turma de estudantes oriundos de todos os recantos do Brasil – muitos dos quais tiveram enormes dificuldades em fazer a viagem ao Rio de Janeiro, como foi o caso dos estudantes do Maranhão, que viveram uma aventura penosa e sofrida de três dias. Todos estes alunos merecem ser parabenizados por seu esforço e pelo pioneirismo. São desbravadores. Pela primeira vez a Bienal da UNE trata de ciência, e pela primeira vez, falou-se em Administração e Economia. Não podemos idealizar uma sessão melhor do que aquela que presenciei, precisamos compreender que este primeiro encontro foi proveitoso e fértil, e esperar que na próxima Bienal algumas críticas como aquelas que deixo aqui tenham sido absorvidas, digeridas e sejam respondidas por meio de trabalhos ainda melhores.

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